A
palavra de ordem é: excitação. Talvez em virtude da minha condição
masculina enquanto espectador. Aquele que vê é o que promulga. Em um
filme desta natureza um fato como este se torna central na elaboração de
um pequeno comentário. Ademais, além da minha condição masculina, é
licito afirmar que este filme, talvez, seja ainda mais excitante para as
espectadoras mulheres. Talvez, até mesmo, um filme
elaborado para elas, em que o lugar para os homens seja apenas no campo
dos bons apreciadores. Assim, como em um auditório de teatro. Por outro
lado, as mulheres possuem lugar especial.
François (personagem principal),
um veterano cineasta, realiza testes de elenco para uma cena de nudez
feminina, durante as sessões fica fascinado com o prazer que algumas
mulheres sentem quando transgridem tabus sexuais. Certo de que encontrou
algo inovador, ele decide fazer um filme que misture ficção e
realidade, explorando os mistérios e labirintos do prazer feminino, isto
é, mostrar a complexidade do prazer na mulher. Disso ele pretende fazer
um filme. Ele descobre que o proibido pode aumentar a capacidade de
sentir prazer, e como um voyeur observa as belas mulheres em cena. Mas, enquanto isso, duas belas jovens, ou anjos caídos, seguem misteriosas ordens, nada positivas para o cineasta.
François
possuía uma qualidade que o argumento do filme parecia defender
avidamente, a saber, qualidades que suscitavam a paixão das mulheres,
quase que um interesse imediato delas. Os Anjos exterminadores,
representados por belas mulheres, o acompanham durante todo o trajeto do
filme, inclusive dando cadência à história, Um dos anjos, tacitamente,
estava apaixonada por François e por suas qualidades.
Esse
anjo exterminador, aqui se assemelha aos nossos ímpetos e desejos, que
sobremaneira estão situados no nosso âmago. Uma espécie de voz, um alter-ego que sopra as mais perfídias resoluções aos nossos ouvidos.
François impulsionado por esse ímpeto, tenta construir seu projeto que
visa sanar as inquietações a respeito dos desejos mais íntimos das
mulheres e seus prazeres mais secretos. O que ocorre, todavia, é o que
por vezes acomete àqueles velhos transgressores da moral em curso, em
principio acontece uma falta de compreensão por parte de seus
contemporâneos e depois, até um possível ostracismo. Essa é a história
que pretende nos contar Jean-Claude Brisseau, cineasta francês,
principalmente conhecido pelo seu trabalho de 2002, "Choses Secrètes",
filme premiado em Cannes. Ele pretende mostrar que os anjos, como descritos anteriormente, ainda são
tremendamente avassaladores.
É um bom filme para quem gostaria de conhecer um pouco do cinema de Brisseau, recentemente homenageado em um evento de filmes Indie
realizado no Cine Sesc em São Paulo. Trata de um tema muito difundido
nos meios literários e artísticos: conhecer a alma da mulher que por
vezes se apresenta como um labirinto sem saída.
Luis Felipe Benedetti
ADENDO:
O filme é trágico, diria, no sentido daquele clássico grego, pois parece que Françoise não poderia ter muito controle sobre o que iria ocorrer, por mais avisos e tentativas de ajuda externa que pudesse ter - daí uma predestinação por conta das próprias inclinações, mas com a pegada psicológica subjetiva moderna de tudo partir do "eu", tanto a bonança quanto a desgraça. Os capetinhas e os anjos, por assim dizer, estão dentro de você. Mas isso numa consideração externa ao filme, claro.
Outra coisa que me agradou muito foi a imagem que ele sem querer passava, a "figura paterna" que, em cada uma das três meninas repercutiu de uma forma específica. Talvez a que mais me chamou a atenção foi aquela em Julie: um amor pelo "pai", motor das ações todas, mas sem a expressão do amor em si, pelo tabu, talvez, ou pela submissão - como uma filha sobre seu pai, secretamente - amor tal expresso pelo contexto e condições de si e de François pela paixão que, ao reencontro, declara ao final. Em linhas gerais, aliás, todas elas manipulavam a situação para que conseguissem algo do diretor, sempre adaptando-se, como boas atrizes e boas representantes do gênero feminino, e como "filhas".
Tudo na obra parece pairar sobre o suposto segredo da alma das mulheres, essa incógnita, um mistério que não se deve atrever a descobrir, trazer à tona. Os anjos ali, sempre prostrados em favor da necessidade de que isso continue um segredo, o segredo da alma feminina, e a registrá-la - como se esse saber fosse um pecado, a caixa de Pandora, de forma que a François é até punido pela sua "transgressão", como um Ícaro que, por se aproximar demais do sol, se queima e sofre as consequências de não obedecer determinadas regras. Aliás, até o anjo se apaixona pelo "pai", e o pune, por conta desse pathos, e do poder que tem sobre o objeto dessa paixão. E as mulheres têm o incrível poder, além de outras coisas, para a punição.
Joaquim Isaac Guimarães Candido

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